quarta-feira, março 26, 2008

postheadericon Professora sexagenária VS Aluna "pita"

Senhoras e senhores: o combate de hoje confronta um professor de história do tempo de Camões - 62 anos de juventude - 1,65m - joanetes e hipertensão VerSus um aluno dos CEF's da Escola EB 2/3 de Trafaria da Mata - 1,72m de videojogos, 25 anos de repetências, fígado gordo e surro de três dias.
Local do confronto: sala de aula, segundo tempo.
Objectivos individuais: o professor deverá apoderar-se do telemóvel, PSP, Mp3, Mp4 e "fusca" do aluno. Por sua vez, o aluno deverá neutralizar as investidas do professor e se possível, tratá-lo com escarno, insultando a sua mãe(zinha) e os Lusíadas.
Pontos extra:
- 5 pontos extra para o aluno, caso consiga provocar um ataque cardíaco ao docente + 2 pontos extra se o ataque for fatal;
- 10 pontos extra para o docente, caso consiga abrir a porta para pedir auxílio + 5 pontos se conseguir retirar o boné da quicksilver ao aluno.
Cobertura audiovisual: garantida pelos colegas de turma, incluindo comentários em tempo real.

... e assim vai o nosso ensino...
segunda-feira, março 10, 2008

postheadericon Avaliem-me sff

Antes de iniciar o tema pretendido com este post, cabe-me agradecer aos poucos que ainda se dão ao trabalho de vir ver se há novidades :)
E indo ao que interessa, escrevo isto alguns dias depois de (dizem) 100.000 docentes se manifestarem em plena praça pública, indignados com o que se tem feito a nível central, e ao que a eles diz respeito, interferindo no (normal) funcionamento da “máquina”. Falo, claro, da avaliação dos professores, pretendida pelo Ministério da Educação, nos moldes "prontamente" apresentados em Janeiro deste ano.
Ultimamente - e passe-se a publicidade - leio as notícias do dia no público online. No que diz respeito a este tema, os comentários aí "postados" estão "recheados" de pérolas linguísticas, à boa maneira lusitana; restando dizer que não são colocados no sentido de elogiar tão nobre profissão.

De facto, a opinião pública, caso lhe fosse dado esse direito, regava os professores com gasolina, ou com outro produto altamente inflamável, mas consideravelmente mais barato. Em seguida, deitava-lhes fogo com um isqueiro à prova de crianças.

Entretanto, o governo e intervenientes económicos, aproveitando a distracção do povo, lá lhe vão entrando no bolso, seja pela ameaça do escalar do preço do pão, seja pela alteração do IVA (para baixo) a que algumas actividades económicas estão sujeitas, sem que o preço final para o consumidor seja alterado (mas que raio terá acontecido aqui?). Assim, mantém-se uma ministra incompetente para distrair o povinho… digo mais, uma socióloga que, caso fosse sujeita a uma prova de conhecimentos, como a própria quer fazer aos docentes, algo me diz que não teria a avaliação necessária para continuar na profissão.
Digo mesmo, que 99,9% dos portugueses (onde eu próprio me incluo), comentam tudo e todos, desconhecendo o assunto, desconhecendo as causas, e mais grave, desconhecendo as pessoas. É triste ter a consciência que somos capazes de tal coisa, ignorando que, talvez, a classe docente não seja assim tão "tapadinha", ao ponto de se juntarem todos em plena rua, qual carnaval do Rio, ou até, de Cabanas de Viriato, seguindo como cordeirinhos ao som do pastor; o tal de sindicato... interessante é ver que muitos que ali estavam, nem sequer são sindicalizados. Quem diz professores, diz outro assunto qualquer, sujeito ao escrutínio na praça pública. Somos pródigos a avaliar o comportamento dos outros, e mais ainda, a concluir que quem protesta, não é competente naquilo que faz.

Enquanto não sentimos a mão a entrar no nosso bolso (entretanto, já entrou por diversas vezes, mas foi de mansinho), ocupamos o nosso tempo a observar da bancada as manifestações dos outros, que, coitados, não são inteligentes ao ponto de saber o que os move a ali estar, a fazer aquelas figuras. E o que está por trás não interessa, já que os mesmos que amanhã nos vão apalpar o forro dos bolsos, naquele caso, são muito competentes. Seja lá o que for que pretendem fazer, naquele caso está bem…

Quem por curiosidade já leu alguns dos meus anteriores posts, sabe que também eu me dedico à mesma profissão que esses tais de 100.000. E mais, que antes disso, mais precisamente durante 10 anos, me dediquei a um patrão que conhecia e que, esporadicamente, a quem podia apertar a mão; quer isto dizer que trabalhei no sector dito privado (infelizmente, hoje em dia, mesmo esses já não são tão privados assim, ao ponto de, a troco de umas influências e regalias, terem que prestar contas a alguém ministeriável). Ora, tendo muitos amigos docentes, também eu dedicava o meu tempo a lamentar as minhas 40 (e tais) horas de trabalho semanais, quando os “caramelos” trabalhavam apenas 22 horas. Escusado será dizer que agora tenho outra percepção das coisas. Mas, considerando que essas 22 horas são dedicadas a leccionar (o resto, já todos ouviram falar, que é necessário preparar aulas, corrigir testes, meter a cabeça no frigorífico para arrefecer, reuniões, meter novamente a cabeça no frigorífico… mas parece que ninguém acredita que isso acontece), digo e desafio o comum dos mortais a experimentar tal acto… 22 horas semanais, dedicadas a (tentar) ensinar uns jovens que, revoltados e tal, se vêm obrigados a ir à escola. Se calhar, um dia bastaria para muitos terem uma percepção diferente da que têm agora.

Lembro-me do meu tempo de escola, em que havia um respeito enorme pela figura do professor (o meu obrigado a todos os meus professores, que fizeram com que hoje eu seja quem sou)… diga-se, que tal figura dispunha de “mecanismos” para penalizar os eventuais infractores, que de alguma forma revelassem um comportamento inadequado ao espaço de sala de aula… e ouvir falar em Conselho Directivo, fazia tremer o rufia mais persistente. Hoje, os miúdos vão para a escola como se fossem para jogar à bola no campo do bairro… perdão, como se fossem fazer uma lan party com os amigos, que isso de futebol com os pés cansa. Hoje em dia, os jovens não são os mesmos; não se regem pelos mesmos princípios… o acto de cuspir para o chão, enquanto se recita um verso de qualquer nobre figura já falecida da nossa praça, com o boné “bem” colocado, é normal. E pôr isso em causa, é contrariar as pobres almas, logo, motivo de crítica por parte dos mesmos, dos respectivos encarregados de educação e sociedade em geral.

Uma coisa é certa, se há um par de anos atrás, tudo funcionava relativamente bem… o que mudou para que hoje funcione mal? Os meus professores tornaram-se maus? A escola fechou as portas aos encarregados de educação? A matemática, história, geografia e demais disciplinas, tornaram-se monstros, que apenas servem para ocupar os professores e demonstrar a fragilidade dos receptores da informação que se quer transmitir? Eu, como trabalho com informática, já pensei em criar um jogo com uns gráficos excepcionais, que pretenda ensinar os jovens a ganhar ao Cristiano Ronaldo, nos pontapés à tabela periódica. Um tiro, e lá vai o mercúrio e o selénio à vida.

Muita coisa está mal nas escolas, mas a meu ver, o mal começa em casa… se nada mais mudou, qual o motivo de hoje em dia ser mais difícil ensinar a criançada? E como uma coisa leva a outra, se eu não responsabilizar o meu filho pelo facto de partir a montra de uma loja do FCP, que grandeza estou eu a transmitir? Se eu não sei incutir alguma responsabilidade aos meus filhos, por que raio censuro a dita “passividade” dos professores? A minha responsabilidade passou a ser a deles? Mas será que os mesmos terão possibilidade de o fazer? Muitos não saberão que, nos dias de hoje, até já há desculpa para a preguiça intelectual, “empurrando” os preguiçosos para currículos alternativos, NEE’s, CEF’s, entre outros modelos de “educação e formação”, que mais não servem do que para desculpar o descuido social de todos nós em relação aos adultos de amanhã. Não me interpretem mal… esses cursos terão o valor que lhe for atribuído, mas muitos dos que para aí são despejados, com umas palmadinhas em casa tinha-se resolvido o problema.

Por isto tudo, não me admira tamanha manifestação de descontentamento, quando se tenta mexer no “mal menor”, sem resolver o resto. É certo que muitos são mesmo movidos pela ameaça de uma avaliação que, sabe quem sabe, é muito injusta, desigual e penalizadora para muitos… basta referir que os critérios de avaliação são subjectivos, que penalizam, por exemplo, um docente a quem não lhe sejam atribuídos cargos nenhuns na escola. Ou então, que como cada escola define os critérios aos quais quer dar mais relevo, um docente “Excelente” numa escola, pode muito bem e com facilidade, ser apenas “Suficiente” noutra. Some-se a isto o tal fantasma da progressão por quotas, e temos o cenário fantástico de, numa escola com poucos docentes “Excelentes” toda a gente progride, ao passo que, numa escola modelo (com meninos bem educados – coisa rara, pais atentos aos problemas da pequenada…), o trabalho dos docentes está facilitado, logo, “Excelentes” com força; só meia dúzia (estimo eu) prospera financeiramente.

Junte-se a tudo isto a “prova de ingresso”, em que um docente com menos de 5 anos “de casa”, em hora e meia (mais uma vez, uma estimativa), compromete tudo o que desenvolveu até à data; chiça… já agora, seria engraçado de submeter todos os docentes à referida prova… e, mais uma estimativa, algo me diz que mesmo o docente mais “excelente” podia ser “expulso taxativamente” da profissão… quando para mais, ninguém sabe o que sairá da cabeça de uns poucos, que originará a referida prova de conhecimentos… deixo isto em aberto para um próximo post.

Não me alongo mais… deixo apenas a seguinte mensagem: exceptuando as manifestações às quais me referi num post anterior, protestar é bom, pois os protestos de hoje beneficiam alguém amanhã…

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